Olhos negros

A marca de carvão sinalizava o desejo em evidência na vitrine da mulher. Era na pincelada forte que chamava seu amor para o amor. Era o sinal. Havia uma senha. Dois sentidos dominavam sua alma feminina: visão e audição. O som que escorria no tempo de espera acionava cada vez mais a necessidade do prazer, mas não era de  imediato, apenas  era volumoso, apimentado, salgado, incrivelmente sonoro em seus olhos manchados de um país distante.

Novamente surgia uma falha, era o rompimento de uma linha invisível que ligava o feminino ao masculino. Culpas? Não, somente falhas no padrão humano desenhado numa fábrica que não pleiteou pela perfeição. O humano resiste, muitas vezes e não sabe o que quer.…só os olhos dela traçados a carvão sabiam onde morava a verdade que excitava e transformava os seres que a seguiam  nos olhares atentos e calados, embora quando despertados na emoção da noite, entoassem tons sedutores para aqueles que o circulavam e roçavam  suas imagens fotografadas no um e no dois. Homem x Mulher. Agora eram pele e voz em um único SER HUMANO.

Terminado o ritual, ela ia em seu destino. Havia pressa no caminhar. A noite já encostava o dia e pedia um descanso para a manhã que relutava em aparecer no cenário do filme que rolava na tela imaginada para o público fiel. Sua bolsa pesava e seus utensílios, era assim que chamava seus livros, porque eram o alimento diário de seus sonhos e fantasias, diziam que seus ombros precisavam de um descanso, mas o coração só lembrava do pedido que seus olhos negros haviam feito. Vá e encontre seu caminho…deseje seu destino e ele virá…

Sabia que faltava pouco para chegar ao ponto de partida. Quando olhasse para a linha de início e ao mesmo tempo terminal, veria seu futuro e seu único perfeito se aproximar e, sem palavras mas com um beijo em negro olhar, apresentaria-se a ela e uma nova vida  naquele instante começaria. Seria mais um momento de encontro. Mulher + Homem em uníssimo.O sol nascia em silêncio. O mundo observava a cena em tela de cristal líquido no final da quadra 21.

Explore posts in the same categories: mini-conto

Comment: