Na cegueira de luz

Ontem assisti ao filme Ensaio sobre a cegueira. Já havia lido o livro há algum tempo, aliás a trilogia: Memorial do Convento (estupendo!!), Ensaio (intrigante) e A Caverna ( marcante). Sou apaixonada por este português chamado Saramago e por outros tantos…mas o que realmente me faz escrever este texto é a intensidade das palavras desse  sujeito -autor -narrador e,agora, as imagens unindo-se a elas no cinema.

É claro que esse livro tinha que virar filme, pois o jogo do olhar, do ver e do enxergar estabelece um diálogo constante na tela maior. Estaríamos olhando, vendo, ou enxergando a história em imagens? Estaríamos cegos tentando decifrar um código? Estaríamos seduzidos pela cegueira branca e,portanto,  deixamos de enxergar os  distantes reflexos do humano em nós mesmos?

Bem vamos por partes:

Em primeiro lugar o que entendemos por olhar,ver e enxergar? São palavras, sons, significados diferentes que  ocupam espaços distintos de observação. Olhar me parece apenas o admirar para descrever o que é exterior. Ver vai além da superfície, penetra diretamente no significado, no código e presenteia quem sabe ler. Enxergar extrapola o interno, porque relaciona, disseca, costura, define, associa, … cria novos olhares.

Assim, no filme, essas posições do ver, do olhar e do enxergar fazem com que o humano se destrua diante de nós leitores  de palavras e  imagens a cada sequência,a cada plano, a cada movimento, a cada tomada, a cada palavra lida e interpretada. É a desconstrução da razão, das verdades estabelecidas, da moral, da ética, das relações.E isso se dá  por meio da cegueira para que haja  um retorno do caos estabelecido na mulher que vê, que enxerga além do primeiro plano. É ela que mantém o humano quase perdido no grupo heterogêneo. Ela representa o início, o retorno, a vida e a esperança de uma visão de futuro.A mulher é personagem marcante nas outras duas histórias da trilogia, pois enxerga  as vontades do humano e tem a oportunidade de escolher o caminho no  seu olhar transformador.

Não importa, no shopping, na caverna de Platão, na cidade cosmopolita de Meirelles, ou no Convento de um passado distante, estaremos sempre a mercê do olhar, do ver e do enxergar do outro como  um jogo de espelhos que refletem imagens, luzes, fatos, ações, posições, sentimentos, emoções humanas construídas no conhecimento e no crescimento. Queremos enxergar a alteridade? Queremos nos fazermos nas relações? Queremos nos entregar às emoções? Queremos reconstruir a partir do nada? Queremos?

Saramago levantou novamente a questão tão discutida na filosofia da antiguidade ou mesmo na mais contemporânea de Derrida: Desconstruir um modelo estabelecido por meio de um novo olhar humano.

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