OLHOS NEGROS
( UM CONTO … UM COMPLEMENTO)
A marca de carvão sinalizava o desejo em evidência na vitrine da mulher. Era na pincelada forte que chamava seu amor para o amor. Era o sinal. Havia uma senha. Dois sentidos dominavam sua alma feminina: visão e audição. O som que escorria no tempo de espera acionava cada vez mais a necessidade do prazer, mas não era de imediato, apenas era volumoso, apimentado, salgado, incrivelmente sonoro em seus olhos manchados de um país distante.
Novamente surgia uma falha, era o rompimento de uma linha invisível que ligava o feminino ao masculino. Culpas? Não, somente falhas no padrão humano desenhado numa fábrica que não pleiteou pela perfeição. O humano resiste, muitas vezes e não sabe o que quer. Só os olhos dela traçados a carvão sabiam onde morava a verdade que excitava e transformava os seres que a seguiam nos olhares atentos e calados, embora quando despertados na emoção da noite, entoassem tons sedutores para aqueles que os circulavam e roçavam.Suas imagens fotografadas no um e no dois. Homem x Mulher. Poderiam ser pele e voz em um único SER HUMANO.
Terminado o ritual, ela ia em seu destino. Havia pressa no caminhar. A noite já encostava o dia e pedia um descanso para a manhã que relutava em aparecer no cenário do filme que rolava na tela imaginada para o público fiel. Sua bolsa pesava e seus utensílios dançavam soltos naquele espaço, eram seus livros, o alimento diário de seus sonhos e fantasias. Diziam que seus ombros precisavam de um descanso, mas o coração só lembrava do pedido que seus olhos negros haviam feito: Vá e encontre seu caminho…deseje seu destino e ele virá…
Sabia que faltava pouco para chegar ao ponto de partida. Quando olhasse para a linha de início e ao mesmo tempo terminal, veria seu futuro e seu único perfeito se aproximar e, sem palavras, mas com um beijo em negro olhar, apresentaria-se a ela e uma nova vida naquele instante começaria. Seria mais um momento de encontro. Mulher + Homem. O sol nascia em silêncio. O mundo observava a cena em tela de cristal líquido no final da quadra 21.
*
Ao redor dele muitas passagens e nenhum sinal que indicasse um passado, um presente ou um futuro, apenas um sentimento estranho de encontro e desencontro que circulava em seu sangue, em sua pele. O que fazer com isso? , me perco em pensamentos … desejos e fujo pra longe…onde irei parar … sofrimento, aventura, loucura,…desejo de estar e não estar, a incerteza que vem em uma palavra uma ação uma reação um choque um beijo de fuga…
Era noite em seu peito, nuvens carregadas de dúvidas iam e vinham em sua direção. Seus olhos não aguentavam mais tamanha tristeza e ansiedade por ela que não dizia palavra, apenas fugia no caminho traçado na linha do tempo para os dois. Ele tinha certeza disso, mas também escolhia o caminho da dor, da volta, do pretérito mais próximo do que aquele que havia ficado guardado em seu Ser homem.
Lágrimas vinham e desciam em seu rosto. A alegria disfarçada no olhar distante de um masculino envolto em beleza interior. O melhor seria envolver-se em meio à multidão tão aflita pelo ter e apressada pelo poder. O conhecimento tomava conta de seu destino. Abria-se um caminho, em cena a rua …
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Rua 21 um encontro…
O olhar baixo que procurava pelo chão sem saber muito o porquê, mas apenas um sentido, uma intuição…num movimento das pálpebras cansadas havia uma elevação morna, um peso que não permitia o foco, apontar uma direção, mas tudo conduzia e, de repente, no não querer se deparou com outro olhar perdido e sofrido.
Era distante e silencioso e vinha em sua direção. Um calafrio passou pelo seu corpo explodindo o desejo escondido e até mesmo esquecido do homem que vivia entre a tristeza e a alegria dissimulada.
Era negro, muito negro como o seu dia e combinava com o ambiente em cena. Ela caminhava e carregava o peso da vida nos ombros, ele podia sentir dentro dele toda aquela sensação que a acompanhava, era o feminino ali exposto. A beleza não estava no olhar tão marcante, mas nos passos amargos que vinham em sua direção. Cada vez mais se aproximava. Era o momento perfeito e ele não poderia perdê-lo por nada. Mas como fazer?
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Rua 21 um encontro
Em meio ao despontar dos raios da manhã, ele apareceu tão melancólico e vinha em sua direção. Seria ele? A grande dúvida.. .o destino….o sabor do tempo…é o ponto de partida finalmente? O que fazer? Imediatamente seus pensamentos procuravam uma dica em tantos outros esquecidos e abandonados pela falta de prática de flertar, de amar…
Apenas alguns segundos os separavam, era a chance de roçar o desejo e ser feliz!
Um espaço, um tempo, um som, um momento apenas… e ele chegou…seus pelos suaves roçaram sua pele e por um segundo o relógio quebrou.
Viveram o ardor do amor apenas naquele roçar de braços, uma viagem ao paraíso da sedução…uma sensação de prazer profundo…um amor que queimava por dentro e fora, um beijo masculino inexplicável…um beijo que se impôs…um beijo esperado…um beijo indecifrável…uma mistura de paixão, de medo, de paz, de imposição masculina e procura feminina. Começava o jogo de pernas de bocas de braços e abraços. Iniciava a explosão e a chegada do caos ao mundo. A zona de conforto deixou de existir em apenas um segundo. Quanto tempo tem um segundo? Uma hora, três, cinco, um amor perfeito…não sei, mas o pensamento, a imaginação sabem…
O roçar dos pelos e o caminhar…um encontro…e a vida em frente à rua 21 … na ficção da tela de cristal líquido.
Abril 25, 2009 at 5:54 pm
Mas agora eu entendo,
O encontro à rua 21,
Mas ainda não sei quanto tempo,
Terei que esperar…
Beijos e bom final de semana!