Viajando com os desejos
Lá vinha em festa a trupe do desejo escondido. Eram umas oito figuras esquisitas que faziam muito barulho pelas ruas da pequena cidade. Com seus movimentos retorcidos como uma dança dos tempos iniciais, eles conduziam o público com um olhar de observação e de exclamação. Diziam que traziam o desejo nas mangas , para tê-los, era só segui-los pois quem quisesse conseguiria encontrá-los. O presente seria dado ao público.
Seus corpos em movimento deixavam ver os ventres em aberto, nenhum tecido os cobria. Era ali que se fazia a ligação com as vontades escondidas e o desejo de amar. A luz entrava e os deixavam brilhar. Cada ventre trazia um desenho, um símbolo que indicava o início e o final, mas ninguém os entendia a não ser a trupe que continuava agitada e convidando a todos a participarem da grande festa que aconteceria: a festa dos desejos expostos.
Eles diziam que, se juntassem todos num só lugar, seria impossivel dominá-los. Eram uma imensidão de vontades escondidas que pediam liberdade. A música seduzia, animava e lembrava um ritual há muito esquecido. Um sinal e, de repente, um rapaz franzino de olhar melancólico e sedutor que formava o grupo da trupe parou e lançou seu símbolo pela rua. Os efeitos brilhantes daquele ícone rolaram em direção a uma moça que, timidamente, segurou um pequeno raio e começou a rodopiar. Aproximou-se do rapaz que já não tinha mais o símbolo no ventre, mas agora nas mãos do feminino. Ela começou a conduzi-lo, libertando-se do oculto: primeiro um beijo em intensidade, depois as mãos que acariciavam seus cabelos, seu rosto…os lábios não conseguiam permanecer sozinhos, solicitavam o outro em vertigem.A união desses dois mundos doía no cordão que os unia em desejo de amantes sedentos de amor.
E assim vários dos símbolos coloridos e de diversas formas foram escapando do ventre de todos os figurantes, percorrendo a rua à procura de um ser que os quisessem. Eram os desejos despertando as vontades escondidas na população. Era o amor nascendo naquele lugar tão esquecido de desejar.
Os sons, os olhares, os sabores vinham e tomavam conta e, num movimento do tempo, todos foram tomados pela cena e pelos amores. E assim viveram magicamente aquele momento como nunca antes acontecera. O desejo penetrara em cada um pelo ventre, pelos poros, pela boca, pelas mãos…
Era o início de tudo…
Todos exaustos deitaram-se à sombra de árvores espalhadas no caminho e relaxaram suas vidas tão amargas e sofridas. A trupe foi se retirando cantando uma música desconhecida, mas igualmente tão familiar para aquela gente que agora não mais se reconhecia. Eles apenas estavam à espera do novo e do desconhecido para amar e desejar.
Maio 29, 2009 at 3:41 pm
Que bela narração, conjugando desejos, amores, vontades e viajando por entre palavras.
Enfim, imaginei-me um destes atores…….. da vida!
Lindo!
Beijos