Violência infância e juventude

“Carta de uma mãe, costureira à redação do jornal da tarde”

SR. Redator

{…}Eu queria que seu jornal mandasse uma pessoa ver o tal reformatório para ver  como são tratados os filhos dos pobres que têm a desgraça de cair nas mãos daqueles guardas sem alma. Meu filho Alonso teve lá seis meses e se eu não arranjasse tirar ele daquele inferno em vida, não sei se o desgraçado viveria mais seis meses. O menos que acontece pros filhos da gente é apanhar duas a três vezes por dia.”

(trecho extraído do romance “Capitães de Areia” de Jorge Amado – 1937)

A violência se disfarça por meio de várias desculpas e uma delas é a educação ou a a re-educação de  crianças  ou  de  adolescentes. As atitudes repressoras  encontram o caminho mais fácil na punição física ou psicológica.

Mas a negligência, o abuso sexual, a exploração comercial sexual, a indiferença, o trabalho infantil são tipos de violência que estão presentes  na sociedade, principalmente, porque quando  acontece, o resultado está diretamente ligado ao fator econômico da vítima e do explorador. O mundo adulto encontra a explicação na condição social e faz de conta que essas agressões não acontecem, ou mesmo justifica qualquer ato baseando-se nela: a miséria. Mas quando ela nasce em outras classes sociais as explicações se perdem porque as justificativas só encontram lugar no poder econômico.

É uma luta desigual, porque a criança ou adolescente não possui “as armas” do mundo adulto para se defender. O corpo ainda em formação não consegue se defender das agressões físicas. A mente ainda em formação não consegue perceber a violência psicológica que vem nas entrelinhas, nas palavras, nas ações daquele que tem o lugar de “cuidador”. A referência muitas vezes para qualquer fator de proteção fica sendo o próprio agressor. Pedro Bodê em “Juventude, medo e violência afirma  que

Todavia, tudo indica que, de maneira geral, há uma percepção mais ou menos universal de que ‘a juventude se caracteriza por seu marcado caráter de limite’ situada que está”no interior das margens móveis entre a dependência infantil e a autonomia da vida adulta, processo que remeteria à construção da identidade, cuja dinâmica constituiria, em muitos casos, uma identidade mesma que teria como marca a provisoriedade. Parecendo ser exatamente esta característica que remeteria à juventude, e mais particularmente à adolescência, para um espaço de irresponsabilidade provisória.”

Esta marca de “irresponsabilidade provisória” estabelece as justificativas para ações contra os adolescentes. Na visão do adulto este não pode responder, então se deve ensiná-lo pela força, ou pelo autoritarismo, pois ainda não compreende sua responsabilidade no espaço social familiar e comunitário.Porém isso torna-se contraditório quando os mesmos  adultos pregam penas iguais para os adolescentes em conflito com a lei. A violência é contraditória.

O trabalho infantil é justificado pela maioria da sociedade quando muitas pessoas relembram  um passado “de orgulho” por ter começado a trabalhar tão cedo e na atualidade, justificando-o pela formação do caráter,  dos valores, da luta, do afastamento das drogas, da marginalização etc. O próprio mundo adulto que espalha este discurso enfático não tem condições de perceber que a violência apenas se repete nas atitudes, nas ações, pela privação da vivência completa dos jogos infantis, quando era o momento certo para desenvolvê-los e esses foram abortados precocemente. A mente humana esconde os resultados de anos de violência e negligência no inconsciente das pessoas e fica muito difícil de perceber aquilo que ficou guardado na memória. Esta realidade realimenta este ciclo  que se estabelece na família, na comunidade, na sociedade.Assim se explica o porquê  da indignação, muitas vezes, no cumprimento do Estatuto da Criança e do adolescente.

A vítima por meio do Eca conquistou um o espaço para ser ouvida. O dar voz as crianças e adolescentes  e cuidá-las é um fator de muita importância porque dá condições de recuperação ou de amenizar situações de negligência, agressões físicas e psicológicas das vítimas. O ouvir não é uma prática muito difundida entre as pessoas, principalmente, quando se refere às  crianças  e aos adolescente, porque pode trazer problemas para o ouvinte, então atitude de ausência é mais fácil de ser praticada. O  constante foco em si mesmo, retira a possibilidade da denúncia, da indignação, do comprometer-se.

Uma sociedade que olha pelas  suas crianças e jovens é baseada em humanidade e desejo de um futuro de tranqüilidade e segurança. Quando plantamos  sementes e cuidamos  delas, regando-as diariamente, damos a elas  sol em abundância, ar puro e nossa  companhia no olhar  para seu crescimento independente, o resultado será  colhermos  flores, frutos saborosos e vivos, para assim o ciclo da existência continuar em harmonia.

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One Comment on “Violência infância e juventude”

  1. rubiana Says:

    Que lindo! A Ana Christina tem de ler! :-D


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